Seu tempo merece sua atenção!

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Virei um sexagenário no início de Outubro. Depois dessa longa caminhada ficam algumas boas lições, se prestou atenção ao caminho. Amigos, amores e dinheiro, vem e vão. Nenhum será tão impiedoso e cruel quanto o dinheiro que não aceita desaforo, nem perdoa seus erros.

Aprendi que a vida sempre te dará uma segunda chance. Porém, para usar essa nova oportunidade você precisa ter tempo. E aí comecei a pensar que essa é a matéria prima da vida e para qual damos poucas importância. Só botamos reparo quando começamos a ter a certeza que o tempo começa a rarear.

Na infância e adolescência cansei de ouvir meus pais dizendo para não desperdiçar tempo. Obviamente naqueles dias ele parecia infinito. Eu tinha todo tempo do mundo. Sabe quando comecei a dar importância ao tempo? Quando comecei a trabalhar e passaram a me pagar pelo uso dele. Nessa fase só conseguia pensar que pagavam por ele menos do que valia.

Mais tarde, quando tomei consciência do meu lugar no universo e nos processos produtivos, comecei a tentar organizar a vida, pensar no futuro e conclui que não havia mesmo mais tempo a perder. Era uma outra época e, é claro, sem todos esses avanços digitais que hoje ajudam, facilitam a vida mas também favorecem ainda mais o desperdício do tempo!

Nesses dias, pós Nobel de Economia para Richard Thaler, a economia comportamental entrou na pauta e até deu guarida lógica para alguns dos nossos vacilos. Nessa entrevista ao El Pais ele fala do tal viés do presente, um defeito de fabricação do ser humano que nos faz dar peso maior ao aqui e agora em detrimento do futuro. É esse defeito que nos faz tomar decisões impulsivas e incoerentes. Como um sexagenário, sem Nobel, sei bem do que fala e das conseqüências disto.

Não bastasse nosso defeito genético parece que o mundo nos convida à dispersão. Como disse, nunca a oferta, graças à Internet, foi tão ampla e diversificada. Atualmente é lá que gastamos nosso bem mais precioso, o tempo. Sempre ele porque o dinheiro é meio e nunca um fim. Ele serve para comprar as conveniências que podem te dar tempo.

E você me pergunta, mais tempo para o quê? Você pode viver 80 anos sem fazer nada ou metade desse tempo de maneira intensa e plena de realizações. Aí é que vem mais uma variável fundamental nessa equação: foco. Aliás, foco é a palavra modernosa para aquilo que os meus e os seus pais tratavam como atenção. Mais um eufemismo desses dias digitais! Na pratica eles diziam para você: mais do que quantidade você precisadar qualidade ao seu tempo.

Botei essa questão no meu horizonte depois de ler esse artigo na Quartz: Technology is destroying the most important asset in your life (quem disse que não tem coisa boa na Internet?). No final das contas, como sabemos, nada é de graça. Todos esses avanços da tecnologia cobram seu preço. Quem paga o preço mais alto é nossa atenção disputada a tapas, cliques e bips pelo ciberespaço.

Transitamos no limite perigoso da falta de atenção. É tanta informação, tanto estimulo que é impossível ao cérebro processar com qualidade essa amontoado de dados. Tenho memória clara quando fazia lição da escola na sala com a TV ligada e meus pais me censuravam. Como meus filhos, argumentava que aquilo não atrapalhava e nem me distraia. Claro que era e é uma tremenda besteira!

Hoje, com esse excesso de estímulos da Internet e dispositivos móveis, a velha TV parece um aquário monótono e inofensivo. Estudos sérios já mapearam nossa capacidade de processamento e acabaram com o mito multitarefa. Quando vejo parceiros esbaforidos, atolados com prazos e assumindo compromissos que não cumprirão, longe de me impressionar ou ficar penalizado, apenas rio e penso: conheço essa história e seu final. Vale para o trabalho, vale para sua vida.

Felicidade, produtividade e dinheiro dependem da capacidade de dirigir atenção para as coisas que interessam. Já parou para pensar quantas vezes seu celular roubou sua atenção em mensagens absolutamente inócuas? Um ingênuo passeio pelas redes sociais, não raro, se transforma num martírio que destrói seu tempo e sequestra sua atenção.

Tenha claro onde você está e onde pretende chegar. Essa história de “deixa a vida me levar, vida leva eu” é ótima para letra de samba ou filosofia de boteco. A única certeza nesse caminho é que nunca estará sozinho. Sempre terá a companhia de um monte de amigos e conhecidos que se deixaram levar. Agora, com o tempo exíguo, ouvirá as ladainhas básicas com direito à lamentações, arrependimentos e pior, a ira indignada ao concluir que a vida é injusta! Mas quem disse que ela era justa?

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