“Alguém tem que fazer alguma coisa”.

Essa semana foi divulgado no Jornal Nacional que quatro milionários, entre eles, Bill Gates, iriam doar metade de suas fortunas em prol de obras de interesse social.

A metade da riqueza desses senhores seria suficiente para tirar da miséria quase um terço da população carente do mundo. Seja em alimentos, moradias, roupas ou medicamentos.

Mas por que motivo surgiu essa benemerência somente agora?

Drama de consciência? Problemas com a receita federal de seus países?

Talvez, mas também podem ser inúmeras outras presunções. Na verdade nunca chegaremos a saber o real motivo.

Nessa história quem jamais fica sabendo o que existe por trás somos nós, o povo.

Sempre fomos manipulados, há centenas de anos atrás.

A tônica sempre foi: poucos mandam e imperam sobre muitos.

E qual a razão disso?

Qual a explicação para uma massa inteira ser controlada por poucos?

Falta de organização? Falta de liderança? Ausência de coragem para reagir?

Podem ser todos ou alguns, mas o certo é que nunca fizemos nada, ou melhor, o suficiente para respondermos à altura.

Quando um governo manda nossos filhos para a guerra sabemos que são poucos que a decidiram, temos noção de que são milhares que vão morrer e, ainda assim, concordamos.

O que afinal acontece conosco?

Dois líderes mundiais discutem, trocam acusações, exageram e decidem declarar guerra. Isso tudo em nome da nação, que são milhares.

Logo utilizam a manipulação político ideológica para fazer com que acreditemos que todos fomos ofendidos em nossa moral cívica e patriótica.

Consequentemente, determinam que, naquele momento, a população precisa reagir e mandar força bélica para o confronto armado onde sabemos que jovens despreparados, e com muito e compreensivo medo, vão para o campo de batalha. Para morrer.

E a troco de quê?

Antigamente, séculos atrás, dois líderes tribais se enfrentariam para decidir com quem estava a pseudo razão. A tribo perdedora aceitava a derrota de todos os seus membros representados na figura de quem os encabeçava.

Ninguém do povo morria. Os líderes talvez não fossem tão sábios, mas eram guerreiros e corajosos.

Hoje os cabeças se desentendem e mandam a população morrer por eles em nome de uma desavença que, certamente, ninguém participou ou concorda.

As guerras religiosas foram piores. Matava-se em nome de uma desavença de fé. Quem era mais forte determinava a morte daquele que não acreditava no mesmo ícone religioso que ele.

Hitler era apenas carismático, ou a população da época era carente, ninguém nunca explicou ao certo, mas o fato é que também as guerras mundiais foram ideais particulares, delírios ideológicos de uma minoria, de pouquíssimos, subjugando todos os outros, milhões na verdade. Como pode isso acontecer?

Átila e Júlio Cesar pelo menos iam na frente dos soldados, guerreiros, enfim, das tropas. Hoje, os generais ficam na retaguarda, acompanhando “ao vivo” cada segundo do desenrolar da mortandade.

E exemplos não faltam nos últimos cinquenta anos ou cinquenta meses. Da segunda grande guerra até a invasão do Iraque, vários governos vão mudando, e as tropas vão morrendo.

Será que o ser humano é realmente assim?

Admite uma série de barbaridades por falta de capacidade de organização para dizer “não”?

Nossa sociedade será tão acomodada que vemos o mal nascer, crescer, a ponto de nos engolir e nada fazemos?

É coerente pouquíssimos dizerem a milhões o que deve ser feito?

Politicamente nos organizamos para que uns poucos nos representem, e quando descobrimos que eles estão representando a eles mesmos, unidos a outros poucos que também deveriam estar lá para nos representar, nada fazemos.

A doutrina que nos impõe é lutar através do voto. Voto que sabemos que também é manipulado por poucos.

Se partimos para a luta pacífica com manifestações, passeatas, etc, corremos o risco de termos a polícia, que também é governada por poucos, a nos dispersar.

Enfim, não sabemos qual o melhor sistema de governo que conseguiria resolver essas questões, mas de uma coisa acho que percebemos, somos enganados quase todo o tempo por poucos, muito poucos, quase nada. E permitimos. Deixamos. Quietos.

Sabe por quê? Acho que, na verdade, pensamos que nunca vai acontecer com a gente. Somos egoístas. Se for no vizinho, ainda bem, já pensou se fosse com a gente? Ufa! Dessa escapamos, foi por pouco.

É, somos assim, por isso que não precisam muitos para nos dominar, por isso nunca precisou.

Se sacrificarmos algumas vidas humanas em nome da “paz”, não tem problema, desde que não seja a nossa.

Onde está Bin Laden? O ex-informante da CIA.

Lembram das armas de destruição em massa que estavam apenas na cabeça de quem determinou a invasão do Iraque? Lembram da ONU que permitiu que isso acontecesse e nada fez? Lembram quando o presidente Bush declarou simplesmente que, na verdade, as armas não existiam e pediu desculpas pelo engano? Lembram que, até aí, o Iraque já tinha sido invadido e milhares morreram apenas para enforcar Sadam Hussein? Lembram que mesmo com a confissão de que o motivo da invasão foi um engano não houve crime a ser julgado por um tribunal penal internacional? Nem reparação de danos à nação Iraquiana? Lembram dos quase 90% dos homicídios que não são resolvidos em São Paulo? Lembram dos casos que a imprensa utiliza todos os dias e depois não lembram mais? (Até porque depois que passa o sensacionalismo o resultado final é o que menos importa, e é divulgado em apenas um minuto). Lembram das pessoas que estão soltas porque não há efetivo policial suficiente para prendê-las? E lembram das que estão presas há mais tempo do que deveriam porque o sistema simplesmente as “esqueceu” após o cumprimento da pena? E os inocentes que foram presos por engano?

Finalmente, lembram que assistimos isso, todos os dias, e por estarmos nos acostumando, com o passar do tempo, achamos normal não lembrar mais?

Então lembremo-nos: um dia pode acontecer conosco. Todas as famílias que perderam filhos ou pessoas queridas não esquecem jamais. Mas o problema é que essas ainda são poucas, e sem capacidade de articulação.

Enfim, lembram que quando os candidatos estão em campanha prometem sempre mudanças, há anos, mudanças que nunca vimos na proporção que prometem porque, simplesmente, quando chegam lá, até, talvez, com boas intenções, percebem que o sistema não era bem assim?

E mais uma vez, sabe porque não fazemos nada? Porque a esmagadora maioria sempre imagina que uma determinada hora poderá fazer a mesma coisa ou, de repente, alguém “chegado” vai estar lá e poderão estar juntos para fazer também (ou tão bem).

Vamos deixar assim? Vamos! E sabe o porquê derradeiro? Porque quando acabar a revolta iremos ficar aguardando; afinal das contas, poxa, “alguém tem que fazer alguma coisa”.

24 Respostas

  1. Ádala Gaspar Buzzi
    | Responder

    Tudo o que foi escrito no artigo supra resume-se em apenas uma palavra: egoísmo.
    Infelizmente, grande parte da população brasileira e, por que não, mundial, é totalmente egocêntrica, praticante fanática do hedonismo.
    As guerras acontecem porque os países envolvidos enxergam tão somente as benésses que uma vitória trarão para o seu país; as crianças estão jogadas nas ruas porque seus pais somente foram capazes de pensar no prazer do sexo sem proteção e não nas consequências que aquilo traria para a vida do ser que se formaria a partir dali; o Judiciário está a droga que está porque temos juízes, promotores, serventuários, advogados e o próprio povo que, por pensarem tão somente em si mesmos, transformam a Justiça em algo lento e, muitas vezes, absurdo; o meio ambiente está sendo prejudicado, igualmente, pelo egoísmo dos homens que só querem saber de levar vantagem.
    Ninguém mais faz nada se não tiver uma vantagem por trás e isso é egoísmo também.
    Enquanto todo o mundo continuar a olhar só para o próprio umbigo, a coisa toda só irá piorar, cada dia mais e mais.

  2. Fabio Braun
    | Responder

    Como eu creio no poder da transformação e não da punição claro(que às vezes se faz necessário, sem dúvida),escrevo para deixar o meu desejo de que essas pessoas repensem os seus modelos; para, também, aqueles que têm o poder, que o use para fazer as coisas funcionarem do melhor jeito possível, a fim de ajudar pessoas, não para sair por aí dizendo que são exemplos, como diz aquela frase: “conheço muitos que não puderam quando deviam porque não quiseram quando podiam”,de François Rabelais.

  3. Gabriela Medeiros
    | Responder

    Excelente artigo “Alguém tem que fazer alguma coisa”!!!

  4. Fabiano Rampazzo
    | Responder

    Quando você está no trânsito e alguém pede passagem você dá? Você cede sua vaga no estacionamento do supermercado? Você devolve o troco errado que veio a mais na padaria? Você fecha o vidro na cara da pessoa que vem pedir ajuda no semáforo? Você acha vagabunda e oportunista a menina violentada dentro de uma universidade porque estava com um vestido curto? Será que você também não fica apenas esperando mais do mundo – e fazendo tudo errado em seu próprio quintal?

  5. Gianna Monteiro
    | Responder

    Muito bom!!!-“Alguém tem fazer alguma coisa”. Esse alguém, precisa ser cada um de nós, diariamente…Diariamente, dando o melhor de nós mesmos aos nossos semelhantes, simplismente porque é bom ser bom!! Quando os egoístas descobrirem isso vão aderir com certeza.Pequenos gestos em nossa rotina, podem mudar nosso meio, nossa célula, nosso meio…Chega de esperar “os salvadores”!!Naturalmente quando o bem “contaminar” à nós todos, nossos governantes serão nosso reflexo, estaremos vivendo em mundo muito melhor.

  6. Francisco N.
    | Responder

    Parece que a história nunca muda, apenas os personagens. A eterna busca do poder, e tudo mais que envolve conquistá-lo, tem sido o grande mal da humanidade. Alguém dita as regras e todos tem que cumprir, afinal a sociedade humana precisa ter organização. Quando esse alguém se esconde por trás de grupos ou corporações, não há a quem combater e oprimir, e esse grupo toma o poder. Isso precisa mudar. Isso requer ação, vontade somente não basta. Temos no voto uma chance de mudar, mas não temos os candidatos que queremos, aliás temos tão poucas opções, e nenhuma é sensata o bastante para acreditar que algo vai realmente mudar. Cada um de nós tem que fazer a sua parte, seja sincero nas ações, seja honesto e não se deixe corromper. Isso já é um começo. Tomara que seja mesmo.

  7. Margarita González
    | Responder

    Ótimo artigo !! O ser humano é egoísta por natureza,porém tem o poder de escolher,entre ser bom ou ser mau, fazer o bem a todos ou apenas a alguns; o mais importante é que o ser humano deveria se conscientizar em fazer aos outros o que gostaria que lhe fizessem, aí sim, a humanidade seria de outra maneira, o mundo seria bem melhor. Quanto ao levar vantagem em tudo, …bem esta é uma nefasta “lei de Gerson” que infelizmente se incorporou ao caráter de muitos brasileiros, obviamente também ligada ao egoísmo.

  8. Adelson Lima
    | Responder

    Na verdade, este é o poder da caneta! O que esta errado mesmo? o que você acha da situação do pais? Ahhh… sei… O Sr. Presidente por favor, me passe a caneta.

  9. Nilson Oliveira
    | Responder

    No final do dia…isto continua a acontecer, por que falta, infelizmente, os valores mais firmes da humanidade atual. Tudo e todos na direção do lucro…até quando o mundo vai aguentar???
    Nilson

  10. Caroline Araujo
    | Responder

    Excelente o texto, pois é a dura realidade que presenciamos dia-a-dia.
    O ser humano tem um poder de adaptação muito grande, por este motivo muitos de nós permanecem inertes diante das situações vivenciadas.
    Além disso, o sentimento de que “isso nunca irá acontecer comigo”, é algo que faz parte da maoria das pessoas!!!!!
    Muitos preferem continuar “andando” pelo mesmo caminho,pois além do comodismo o medo é um sentimento que bloqueia, que faz com que se feche os olhos para a realidade, pois muitos dizem:
    “Ta ruim, mais ta bom!!!Tem gente pior do que eu!!!!!”.
    O egoismo pralece, cada um olha para o “seu umbigo” e simplesmente se acomadam………
    Ah!!Como seria mais fácil, se todos pudessem se unir….
    Como seria mais fácil, se todos tivessem a coragem de trilhar por um caminho diferente…..Com certeza o mundo seria melhor e o poder não estaria na mãos de poucos e sim divida nas mãos de muitos…
    Mas..Isso é uma utopia?
    …..Cada um tem de fazer sua parte……

    Abraços.

  11. Rodrigo Melo
    | Responder

    Não adianta… para fazer alguma coisa é preciso haver sangue. Ninguém quer morrer pelos outros ou pela coletividade. Protestar sim, lutar não.

  12. Valdir Bonfim
    | Responder

    Não podemos nos omitir de nossas próprias responsabilidades, pois sempre tem algo simples e importante que podemos fazer. Vivemos num Estado Democrático de Direito, onde escolhemos nossos representantes, e no entanto, nunca (ou quase nunca) cobramos deles as promessas que nos fez acreditar na hora do voto, o efeito pode ser muito lento, mas devemos manifestar nossos inconformismos entrando em contato eletrônico diretamente com os Parlamentares e Deputados Estaduais: I)Na Câmara, é indicado mandar e-mail pelo “Fale conosco”; II)No site do Senado, basta utilizar a ferramenta “Alô Senado”; III)Acesse o site da Assembleia Legislativa do seu Estado e certamente acessarás o deputado estadual desejado.

  13. Carla Pimenta
    | Responder

    Assim como a maioria, este é mais um excelente artigo para refletirmos.
    O silêncio do povo, indiretamente, tem sido a pior arma.

  14. Sérgio Luís Nastaro
    | Responder

    “O artigo me fez refletir também sobre as eleições gerais do Brasil no próximo mês de outubro”. Parabéns Shinckar

  15. Caro Shinckar, retirando-se os comentários sobre as doações dos “milionários”, o texto fica perfeito. Afinal, esse grupo de milionários teve atitude, que é o que nos falta. Vejamos: semana retrasada, em movimentada av. da capital de SP, por volta das 23:00 h presenciei um grave de acidente envolvendo pelo menos 2 motos. Como estava levando uma amiga à residência dela e vários motoqueiros já se aglomeravam, segui em frente. 20 minutos após quando retornei, já havia um grande congestionamento e quando passei pelo local as vítimas ainda estavam desfalecidas no asfalto, mais de 50 motoqueiros e não havia nenhum resgate. Imediatamente acionei o 193 e constatei que NINGUÉM até aquele momento havia solicitado ajuda, sendo que há uma Delegacia a menos de 5 minutos e uma Corporação dos Bombeiros a menos de 10 minutos do local. Bem, este é só um exemplo da falta de atitude das pessoas pois TODOS temos fone celular e podemos denunciar os fatos que presenciamos no dia a dia: sequestro relampago, pichação de muros, rachas de carros/motos, assaltos, tráfico/consumo de drogas, vandalismo / depredação de transporte público, etc.
    Invariavelmente consigo sucesso quando estou sozinho. Quando estou acompanhado sempre escuto “mas pra que isso?” , “só vc mesmo..!!” “vc é trouxa? pq vai se envolver?” “vc ganha alguma coisa com isso?”….
    Em tempo:
    – nunca fiz nada concreto a respeito da saúde pública e já fui vítima mts vezes (note-se que tem mais seguranças em Bancos e Hospitais Públicos do que Caixas e Médicos),
    – nunca fiz nada a respeito da educação pública.
    OK, o assunto são os políticos… o poder executivo, legislativo e judiciário. Acabei me esquecendo deles!
    É isso mesmo “Alguém tem que fazer alguma coisa”.

  16. Natacha Forbes
    | Responder

    Brilhante colocação que confirma a fragilidade da sociedade dominada e anestesiada pelo ópio da falsa aparência de que somos cada dia mais esclarecidos.
    Na verdade, não temos acesso a nenhuma informação legítima que não tenha sido manipulada, submetida ao crivo dos poderosos interesses que, muitas vezes, sequer sabemos existir. Ainda que a imprensa – nosso único acesso à informação imediata – nos apresente matérias bombásticas, certamente já foram cortadas, moldadas e adaptadas ao teatro que somos obrigados a assistir, sempre como passivos espectadores.
    Acostumamos com isso. Com a banalidade das notícias trágicas que, felizmente, não abalaram o nosso cenário. E nos acomodamos poucas horas depois de uma manifestação passageira de indignação ao lermos ou assistirmos o jornal. Esse é o problema: a indignação e a vontade de mudar não dura. Assim como o trauma de um assalto potencializa o medo por um tempo, a indignação também tem seu ápice, mas também passa, fazendo com que voltemos a levar nossas vidas como antes, inertes e acomodados.
    A tônica de que poucos mandam e imperam sobre muitos decorre da falta de interesse do cidadão em participar legitimamente da luta pelo povo, seja pelo voto, seja como legislador. Não há mais ideologia e sim jogo de interesses particulares. E pior: os poucos ideológicos que existem são fanáticos e promovem mortes para defender as suas ideias, esquecendo-se que todos tem direito de expressar sua opinião, inclusive a política e religiosa.
    O povo quer terceirizar a solução, por isso não faz nada para mudar. Primeiro precisamos nos libertar do comodismo para, somente depois, unirmos forças para fazer prevalecer o bem comum.
    Parabéns pelo tema e brilhantes colocações!
    Natacha Forbes

  17. Rogério Gregório
    | Responder

    Sociedade omissa, aglomerado de covardes.
    Não passam de massa de manobra de nefastos governantes.
    Futebol, carnaval e novela são os pilares dominantes do povo.
    Poucos têm procurado reverter esse quadro, entretanto, estão atrelados a essa massa de néscios.
    Não estamos no mesmo quintal? A porta será uma questão de tempo.
    As mudanças podem ocorrer, desde que façamos a diferença.

    Abraço

  18. Carlos Leite Cesar Neto
    | Responder

    Nós brasileiros somos alienados e nada fazemos diante da bandalheira que se institucionalizou em nosso país. E nesse ano temos uma grande chance de iniciar a mudança de postura que se faz necessária, deixando de eleger aqueles os oportunistas de sempre e as gangues que fazem dos governos verdadeiros cabides de empregos.

  19. Ticiana Rezende
    | Responder

    Prezados,
    Caro Shinckar,
    como já havia lhe dito, adorei o texto que retrata a triste realidade do planeta e do nosso país… e, na realidade, vemos tudo relatado refletido no Microcosmos do mundo corporativo, onde quando alguém tenta reinventar e melhorar processos, colocar em prática idéias inovadoras ou simplesmente realizar um bom trabalho, se esforçando ao menos as suas 8 horas diárias e fazendo jus ao seu salário, incomoda de tal forma a medíocre massa acomodada que é simplesmente, enxotado… triste meu caros, triste e desanimador.

    Aproveito então para compartilhar com vocês um texto tristemente fantástico da Sandra Cavalcanti que recebi hoje. Longo mas muito bem escrito e tristemente oportuno.

    Tristes tempos: já não podemos falar mais nada!

    Por Sandra Cavalcanti

    O País está vivendo uma fase de completo e total desrespeito às leis. A Lei
    Maior, aquela que o País aprovou por meio de seus representantes, não
    existe. Para uns, todas as leniências. Para outros, todos as violências.

    Em 14 de abril de 1930, aos 36 anos, Vladimir Maiakóvski, o maior poeta
    russo da era contemporânea, deu um fim trágico à sua atormentada vida.
    Matou-se porque perdeu toda a esperança e se viu diante de uma estrada sem
    saída.

    Sua obra é absolutamente revolucionária, como revolucionárias eram as suas
    idéias. Mas o poeta, dizia ele, por mais revolucionário que seja, não pode
    perder a alma!

    Ele acreditou piamente na Revolução Russa e pensou que um mundo melhor
    surgiria de toda aquela brusca e violenta transformação. Aos poucos, porém,
    foi percebendo que seus líderes haviam perdido a alma. A brutalidade
    crescia. A impunidade era a regra. O desrespeito às criaturas era a norma
    geral. Toda e qualquer reação resultava em mais iniqüidades, em mais
    violência. Um stalinismo brutal assolou a pátria russa. Uma onda
    avassaladora de horror e impotência tomou conta de seu espírito, embora
    ainda tentasse protestar. Mas foi em vão. Rendeu-se e saiu de cena.

    Em 1936, escreveu Eduardo Alves da Costa o poema No caminho com Maiakóvski,
    que resume sua desoladora tragédia.

    “… Na primeira noite eles se aproximam/ e roubam uma flor/ de nosso
    jardim./ E não dizemos nada./ Na segunda noite, já não se escondem:/ pisam
    as flores,/ matam nosso cão,/ e não dizemos nada./ Até que um dia,/ o mais
    frágil deles/ entra sozinho em nossa casa,/ rouba-nos a luz e,/ conhecendo
    nosso medo,/ arranca-nos a voz da garganta./ E já não podemos dizer nada.”

    Nestes tristes tempos, muitos estão vivendo as angústias desabafadas neste
    poema. Também acreditaram em líderes milagrosos, tiveram esperanças em dias
    mais serenos, esperaram por oportunidades melhores e sonharam com paz e
    alegria. Nunca imaginaram que, em seu lugar, viriam a impunidade, a
    violência, o rancor e a cobiça. Os que chegaram ao poder, sem nenhuma noção
    de servir ao povo, logo revelaram a sua verdadeira face.

    O País está vivendo uma fase de completo e total desrespeito às leis. A Lei
    Maior, aquela que o País aprovou por meio de seus representantes, não
    existe. Para uns, todas as leniências. Para outros, todos as violências. Nas
    grandes cidades, dois governos, duas autoridades: a tradicional e a dos
    marginais. No campo, ausência de direitos e deveres. Uma malta de
    desocupados, chefiados por líderes atrevidos e até debochados, está
    conseguindo levar o desassossego e a insegurança aos milhões de
    trabalhadores rurais que ali se esforçam para sobreviver. Isso já vem
    acontecendo há muito tempo e não há sinal de que alguma autoridade pretenda
    submetê-los às penas da lei. Ao contrário. Eles gozam de imenso prestígio
    junto ao presidente, que não se acanha em lhes dar cobertura e agir com a
    maior cumplicidade.

    A ausência das autoridades tem sido o grande estímulo para que esses grupos,
    e outros que vão surgindo, venham conseguindo, num crescendo de audácia e
    desrespeito, levar o pânico aos que vivem do trabalho no campo. A mesma
    audácia impune garante também a expansão das quadrilhas de narcotraficantes
    em todo o País. A cada dia que passa eles chegam mais perto de nós. Se
    examinarmos com atenção os acontecimentos destes últimos dois anos, dá para
    entender o nosso medo.

    Quando explodiu o caso do Waldomiro Diniz, as autoridades estavam na
    obrigação de investigar tudo e dar uma punição exemplar. O que se viu? Uma
    porção de manobras para encobrir os fatos e manter os esquemas intocáveis. E
    qual foi a reação do povo? Nenhuma.

    Roubaram uma flor de nosso jardim, a flor da decência, da dignidade, da
    ética, e nós não dissemos nada!

    Quando, da noite para o dia, dezenas de deputados largaram suas legendas e
    se bandearam para as hostes do governo, era preciso explicar tão misteriosa
    adesão. O que se viu? Uma descarada e desafiadora alegria no alto comando do
    País! E qual foi a reação do povo? Nenhuma. Eles nem se esconderam. Pisaram
    em nossas flores, mataram o cão que nos podia defender. E nós não dissemos
    nada!

    Quando um parlamentar, que integrava a tal maioria, veio denunciar o uso de
    recursos públicos, desviados de forma indecente, com a conivência dos altos
    ocupantes do governo, provando que a direção do PT e do governo sabiam de
    tudo e de tudo se haviam aproveitado, qual foi a reação do povo? Nenhuma.

    Eles nem se importaram com o fato de terem sido descobertos. O mais frágil
    deles entrou em nossa vida, roubou a luz de nossas esperanças e, conhecendo
    o nosso medo, ainda se deu ao luxo de arrancar a nossa voz da garganta.

    Será que vamos aceitar? Não vamos dizer nada? Será que o povo brasileiro
    perdeu de vez a sua capacidade de se indignar? A sua capacidade de
    discernir? A sua capacidade de punir?

    Acho que não. Torço para que isso não esteja acontecendo. Sinto, por onde
    ando e por onde vou, que lá no mar alto uma onda de nojo está crescendo,
    avolumando-se, preparando-se para chegar e afogar esses aventureiros. Não se
    trata, simplesmente, de uma questão eleitoral. Não se cuida apenas de ganhar
    uma eleição. O importante é não perder a alma. O direito de sonhar. A
    vontade de viver melhor.

    Colocar este momento como uma simples luta entre governo e oposição é muito
    pouco. E derrotá-los, simplesmente, também é muito pouco, diante do crime
    que eles praticaram contra as esperanças de um povo de boa-fé.

    O que vai hoje na alma das pessoas é o corajoso sentimento de que é preciso
    vencer o pavor e o pânico diante da audácia dessa gente, não permitindo que
    eles nos calem para sempre. Se não forem enfrentados, se não forem punidos,
    se seus métodos e processos não forem repudiados, nosso futuro terá sido
    roubado. Nossa voz terá sido arrancada de nossa garganta.

    E já não poderemos dizer nada.

    Sandra Cavalcanti – é professora, foi deputada federal constituinte, secretária de Serviços Sociais no governo Lacerda, fundadora e presidente do BNH.

  20. Marcelo Mannocci
    | Responder

    Creio que os diversos comentários refletem uma unâmidade – Falamos muito, fazemos pouco.
    E como foi comentado infelizmente é o mal da humanidade – o egoismo, a raiz da decadência humana

  21. Felipe de Abreu
    | Responder

    Bom texto, representa bem a nossa sociedade. O poder concentrado na mão de poucos, se você pensar que 50% da riqueza nacional está com apenas 1% da população já dá para se ter uma idéia da realidade. A mídia é manipulada, há interesses por trás.
    E o mais importante, o povo brasileiro tem menória curta e é acomodado em alguns sentidos. Como pode comprar um voto? Basta levar uma camiseta do candidato e pronto.
    As eleições estão ai, faltam 40 dias, vai ter mudanças? Ah pouco acredito…Sarney, Collor, Maluf, esses há tem cadeira garantida.
    É preciso alguém fazer alguma coisA!!!

  22. Aline Arruda
    | Responder

    Shinckar:
    Infelizmente chegamos em um ponto no mundo que cada um tme sim que fazer a sua parte por menor que seja. Mudar de mentalidade, reciclar o lixo, doar o que não usa, economizar água…
    Todos somos parte de um todo, cada um tem a sua contribuição.
    Alguém tem que sim fazer alguma coisa, que esse alguém sejamos nós!
    A responsabilidade é nossa sim.
    Abraços,
    Aline Arruda

  23. Flavia Villela
    | Responder

    Incrivel artigo! Muito bom.
    O que falta no ser humano e o que chamamos de ‘self awareness”, auto consciencia. Se cada um fizer sua parte, o mundo sera diferente. E a atitude que determina a vida das pessoas, o rumo de uma nacao.

    Se nao fizermos com outros o que nao gostariamos que outros fizessem conosco ja e um grande passo que damos para mudarmos a humanidade.

    Ser ambicioso e positivo e conduz o ser humano a um crescimento interior e exterior; quando eu menciono a palavra “ambicao” eu me refiro tambem ao desejo de melhorarmos como “Ser Humano” nesse planeta; e esse o legado que deixamos quando partimos. Sao os nossos valores internos que transmitimos as pessoas e as proximas geracoes que formam uma solida estrutura que gera uma humanidade saudavel.

    O que o ser humano possui como sentimento que impulsiona a vida e a ganancia, e o querer mais que o necessario. Somos animais embora racionais, lutamos como outros animais pelo nosso alimento e bem estar e a “ganancia” e a busca pelo “poder exagerado” nao e um “instinto natural” do ser humano. E isso que gera injustica, guerras, vidas perdidas, tragedias……

    A partir do momento que cada um fizer sua parte, ter auto consiencia, e mudar a atitude, o planeta Terra vai evoluir e o mundo vai mudar. Cada um tem seu poder de lideranca que nao necessariamente implica em controlar o mundo.

    Muito bom artigo porque me faz refletir e pensar com mais intesidade na atitude que posso mudar e crescer com isso!

    Abracos,

    Flavia

  24. JULIO CELIO DE OLIVEIRA
    | Responder

    Caro Shinckar, os problemas da política podem ser melhorados. Já há meios para que muitos possam “mandar”. Alexis de Toqueville, nobre francês que visitou os E.U.A na década de 30 do século XIX e escreveu “A Democracia na América”, criticou o que nomeou de “tirania da maioria”, pois os magistrados eram eleitos e as minorias não tinham a quem recorrer. Deviam obedecer leis que lhes oprimiam em nome da vontade geral.
    No Brasil, a magistratura é de carreira e garante o direito de recurso individual de cada cidadão e das minorias. Menciono isto só para mostrar como TUDO pode ser modificado. A nossa indignação pode ficar restrita aos comentários deste site e à consciência individual de seus poucos leitores e comentadores. Para que as coisas mudem de fato, precisamos utilizar algum meio de alterar a constituição e implantar a DEMOCRACIA PARTICIPATIVA, tema que já lhe solicitei um artigo. Garanto aos leitores que ficarem curiosos poderão ver uma luz quando o “mestre” Shinckar atender meu pedido.

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